CRISTIANE BARRETO'sBUSINESS & CAREER INSTITUTE
Liderança

A Zona Oculta nas Organizações

Cristiane Barreto, PhD

Liderança

Atualizado em

Tudo o que podemos ver e ouvir numa organização está conectado a uma parte que não podemos ver nem ouvir com clareza: a dimensão invisível e subterrânea da vida organizacional. O que percebemos na zona clara — tipo de liderança, resultados financeiros, qualidade dos produtos, rotatividade — é a materialização dos processos que acontecem na zona oculta.
Em resumo
  • O que se percebe na zona clara de uma organização — relacionamentos internos, tipo de liderança, resultados financeiros, qualidade de produtos e serviços, rotatividade e comprometimento — é uma materialização dos processos grupais que acontecem na zona oculta dela.
  • A zona oculta da organização compreende preconceitos, conflitos velados, relações de poder, conversas “não faláveis” e conteúdos importantes nunca trabalhados, e cedo ou tarde esse material vem à superfície reclamando por atenção.
  • A verdadeira mudança na organização tem de começar pela mudança no interior dela, na zona oculta, porque a organização colhe exatamente os resultados que produz por ser do jeito que é.
  • A zona oculta não é totalmente ruim: ela pode estar escondendo a verdadeira competência organizacional, que se torna fonte de força genuína quando é encarada com honestidade e desenvolvida.

Por que a organização tem uma dimensão visível e outra invisível?

Tudo o que podemos ver e ouvir numa organização está conectado a uma parte que não podemos ver nem ouvir claramente: a parte invisível e subterrânea. O que percebemos na zona clara, como os relacionamentos internos, o tipo de liderança, os resultados financeiros, a qualidade dos produtos e dos serviços, a rotatividade de colaboradores e o comprometimento, é uma materialização dos processos grupais e dos mecanismos internos que acontecem na parte invisível da organização: a zona oculta dela. Essa zona constrói tudo o que vemos e ouvimos na parte visível.

Isso acontece devido ao princípio fundamental da dualidade, que é a qualidade ou propriedade do que é duplo, ou seja, aquilo que sempre contém em si dois opostos. O que nós, seres humanos, organizações, famílias ou países, vivenciamos nos é trazido sempre em pares de opostos: bem e mal, dia e noite, amor e ódio, doce e salgado, claro e escuro, emoção e lógica, positivo e negativo, interno e externo, cara e coroa. Tudo está na mesma natureza. Olhando apenas para fora, não teremos a noção exata dos eventos. É olhando para fora e para dentro que poderemos compreender de fato o que está acontecendo e estabelecer mudanças necessárias, sustentáveis e duradouras.

O que mora na zona oculta de uma organização?

Os aspectos visíveis da organização são a estratégia, a missão, os valores declarados, as operações, as rotinas, os objetivos e os planos. A zona oculta é uma dimensão onde se encontram elementos subterrâneos, aquilo que está por trás de tudo o que é percebido. Essa parte invisível se encontra em todas as atividades diárias e, de fato, está presente em todos os momentos. Dessa forma, percebe-se a importância de a gestão não se concentrar apenas nos aspectos visíveis da organização.

Uma organização colhe exatamente os resultados positivos ou negativos que produz porque ela é assim, na revelação do “Ser” organizacional dela, que também se encontra na zona oculta. A verdadeira mudança na organização tem de começar com a mudança no interior dela, na zona oculta.

A zona oculta da organização compreende elementos de preconceitos, conflitos velados, relações de poder, conversas “não faláveis” e conteúdos importantes, porém não trabalhados nem resolvidos. É uma zona minada, que foi colocada na sombra da organização por causa da complexidade dela e da dificuldade de ser encarada e resolvida. Torna-se fundamental, portanto, a gestão dessa zona. Cedo ou tarde, todo esse material jogado e escondido na zona oculta virá à superfície, reclamando por atenção. Ignorá-la, imaginando que não oferece riscos e que está bem escondida de todos, pode ser um grande erro.

A zona oculta pode se tornar fonte de força?

Jung também nos ensina que não é apenas o lado negativo que dissimulamos, desprezamos e reprimimos: podemos fazer o mesmo com qualidades positivas. Por conta disso, a zona oculta não é totalmente ruim. Ela pode estar escondendo a verdadeira competência organizacional. Se essa competência for revigorada e desenvolvida, e principalmente encarada com honestidade, a zona oculta se torna fonte de força organizacional genuína, em vez de fonte de risco.

Muitas vezes o líder está tão preocupado com um dos lados da dualidade que esquece que o todo sempre tem duas faces. O equilíbrio verdadeiro exige sustentar as duas. A zona oculta precisa ser trabalhada, desenvolvida e resolvida para evitar um forte acúmulo de energia que um dia reclamará vazão. Encará-la conscientemente não é uma ameaça à organização: é um ato de liderança.

A resposta curta

A zona oculta é a dimensão invisível e subterrânea de uma organização, e é ela que constrói tudo o que é visível: os relacionamentos, a liderança, os resultados e a rotatividade. Como guarda preconceitos, conflitos velados, relações de poder e conteúdos não resolvidos, geri-la não é opcional: todo esse material virá um dia à superfície reclamando por atenção. Trabalhada com honestidade, porém, essa mesma zona pode revelar a verdadeira competência organizacional, e é por isso que encará-la conscientemente é um ato de liderança, e não uma ameaça.

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